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19

ago, 2014

Trabalho e sofrimento no contexto da globalização

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TRABALHO X SAÚDE

O trabalho pode ser uma fonte de prazer e promoção de saúde, pois através dele, o trabalhador pode socializar-se, amadurecer, realizar-se e dar um objetivo a vida. Contudo, deverá ter um sentido pessoal e significado para a sociedade. Maslow (KONDA, 1944) destaca as cinco necessidades básicas do homem: Fisiológica, Segurança (física e mental), Socialização, Ego e Auto- realização. Para que o trabalho possa promover saúde, e consequentemente, maior produtividade, torna-se necessária a satisfação destas cinco necessidades.

Desde as mais antigas culturas, o trabalho humano foi associado a idéia de sofrimento. A própria etimologia da palavra portuguesa “trabalho” remete-se ao verbo latino “tripiliare” que significa martirizar com o tripalium, um instrumento de tortura. Assim, esse verbo dá a idéia primitiva de sofrer que passou para a idéia de esforçar-se, trabalhar.Na bíblia, no livro Gênesis, tem-se o trabalho como um meio de sofrimento e castigo imposto por Deus ao primeiro casal humano

À mulher ele foi prescrito através das dores de parto (“trabalho” de parto) e ao homem à labuta, ao longo de sua vida, pela própria sobrevivência: 

À mulher ele disse:

“Multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos. (…). Ao homem ele disse: “Porque escutastes a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te proibira comer, maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimentos dele te nutrirás todos os dias de tua vida.” (GÊNESIS, CAP. 3, V 17).

 

Tempos atrás, o homem ainda era o foco da relação homem-trabalho. Ele adaptava suas armas de caça e outras ferramentas a suas características. Hoje, o capital é o foco e o homem é quem se adapta ao ambiente de trabalho.

As inovações tecnológicas e a busca acirrada pelo diferencial competitivo interferem nas atividades e nas relações. Esse cenário em que o trabalhador contemporâneo atua e deve adaptar-se, vem ameaçar constantemente sua saúde mental, integridade física e afetiva.

 

O ESTUDO


OBJETIVOS

– Analisar os motivos do sofrimento do servidor público da cidade de Fortaleza no contexto da globalização.

METODOLOGIA E PROCEDIMENTO

– As entrevistas foram realizadas através de questões norteadoras que abordaram a influência do ambiente de trabalho na saúde dos servidores públicos da rede pública de Fortaleza.

– Os informantes foram três médicos peritos e a assistente social do IPM- Instituto de Previdência, órgão responsável pelas licenças e aposentadorias dos servidores públicos.

– Os dados foram analisados através de uma abordagem qualitativa e as falas categorizadas, seguindo o critério de repetição das falas.

RESULTADOS

De acordo com a análise das falas, obtivemos quatro grandes categorias:

CATEGORIA I – PROFISSIONAIS MAIS AFETADOS:

“(…)eu diria que 90% são professoras. Quando tá nas ferias, não aparece quase ninguém para atender.”
“A procura do professor é muito grande por causa do ambiente de trabalho”

CATEGORIA II – DOENÇAS MAIS FREQUENTES:

“As patologias mais freqüentes das professoras são as relacionadas com a voz.”
“A maioria vem com atestado, afastamento do trabalho por motivo de depressão, ansiedade.
“Estamos vendo que o problema de voz também tem a questão psicológica(…). As vezes elas trazem o atestado do otorrino e do psiquiatra. Aí a gente já vê.”

CATEGORIA III – RELAÇÃO DE PODER

“Elas se sentem pressionadas. As diretoras reclamam. Não podem faltar e se faltarem, elas tem que compensar…. é o mesmo que não poder ficar doente.”
“O professor normalmente tem um ambiente disputado, principalmente com alguns diretores (…). Já houve alguns casos polêmicos de perseguição.”

CATEGORIA IV – RELAÇÃO COM ALUNOS

Elas falam: “Não, doutora, eu não agüento não! Os alunos ameaçam, um já tentou me bater…”
“(…) existem casos em que os alunos chegam drogados (…). Elas não podem nem falar, nem abrir a boca porque se abrirem a boca estão correndo risco.”

 

CONCLUSÃO:
De acordo com as falas, o maior índice de consultas realizadas na Junta Médica é com professores. Segundo os informantes, são realizadas intervenções médicas, psicológicas e fonoaudiólogas, porém, percebe-se que a problemática tem além destas dimensões, uma intensa origem social que acaba por interferir gravemente na saúde destes profissionais e na educação da região.

Concluímos que as relações vivenciadas no ambiente de trabalho dos professores da rede pública de Fortaleza retratam relações de competição, violência e disputa de poder, atuando de forma desfavorável na saúde destes profissionais. Essas relações retratam o cenário da globalização, onde o foco é o capital e não o sujeito, incentivando uma eterna disputa de poder.

 

Autores:
Marcelo de Carvalho Filgueiras

Júlia Beatriz de Alencar Gadelha Vieira

 

 

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